Lembras-te de como eu era no início? Lembras-te como éramos antes de tudo o resto?
Os teus olhos da cor da elegância emanavam ternura e dedicação e os teus cabelos, nem loiros, nem morenos, balançavam nas ondas do mar a tocar a noite da minha ingenuidade. Os teus braços esbeltos abraçavam esperanças ténues e abandonadas que tentavam, sem saber, escapar pelo mais ínfimo espaço por ti deixado, desde as curvas suaves da tua silhueta até ao seio do meu sono mais profundo.
Não havia luz nem escuridão. Não havia o bom nem o mau. Não havia um “eu” nem um “tu” e nem sequer a dor e a felicidade ou o hoje e o amanhã.
Costumava pensar que no teu abraço, no meu refúgio de sempre, tudo parava e tudo ficava bem, mas as tuas acções dissimuladas e de faca escondida sempre me fizeram perder aquilo por que lutava. A tua força e o teu controlo sufocavam-me. As tuas correntes prendiam-me ao chão como se de uma besta adormecida me tratasse. A tua mente limpa e falsa dominava-me de tal forma, que serias capaz de me aprisionar num espelho sem que eu notasse a diferença entre a imagem distorcida e fraca e o “eu” que jazia por detrás dela.
Agora já não estás comigo. Já não me acompanhas. Simplesmente porque te abandonei num cais remoto e sombrio, sem pensar duas vezes, sem olhar para trás e sem um único “adeus”. Tudo o que me deste foi uma ilusão e nada mais do que a perdição e o desassossego.
E agora?
Agora que dizes da solidão, Inocência?
Inocência do meu coração?

